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Rio de Janeiro,25/02/2026

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    VILA KENNEDY

    O MEU LUGAR, FAZ 62 ANOS

    Liro Levi
    VILA KENNEDY CPDOC/FGV

    Vila Kennedy – O meu lugar faz 62 anos

    Vila Kennedy completa 62 anos. Um número que, à primeira vista, sugere maturidade, história consolidada, pertencimento. Mas, para quem vive o bairro no cotidiano, o aniversário vem carregado de contradições. Celebrar mais de seis décadas de existência é, ao mesmo tempo, motivo de orgulho e de reflexão amarga. Afinal, como explicar que um bairro que atravessou gerações ainda conviva com problemas tão antigos quanto a sua própria fundação?

    Inaugurada na década de 1960, Vila Kennedy nasceu como um projeto habitacional marcado pela promessa de recomeço. Famílias removidas de outras áreas da cidade chegaram com a esperança de uma vida mais digna, com casa própria e infraestrutura mínima. O discurso oficial falava em progresso, urbanização e integração à cidade. A prática, no entanto, revelou um caminho muito mais duro. Desde o início, o bairro conviveu com a distância do centro das decisões, com serviços públicos insuficientes e com o estigma social que o acompanharia ao longo do tempo.

    Sessenta e um anos depois, muitas das mazelas daquele período inaugural ainda persistem. Ruas que sofrem com a falta de manutenção adequada, saneamento básico incompleto em diversas áreas, dificuldades no acesso à saúde, à educação e ao transporte de qualidade. A sensação de abandono pelo poder público atravessa décadas e se renova a cada gestão que promete, mas não entrega. O tempo passou, os moradores envelheceram, novas gerações nasceram, mas a dívida histórica permanece aberta.

    Ainda assim, reduzir Vila Kennedy às suas carências seria cometer uma injustiça profunda. Porque, se há algo que define o bairro, é a resistência. Uma resistência cotidiana, silenciosa e, muitas vezes, invisível para quem olha de fora. Resistência de quem acorda cedo para trabalhar longe de casa, enfrenta longos deslocamentos e retorna à noite para cuidar da família. Resistência das mães que criam seus filhos com esforço redobrado, dos jovens que insistem em sonhar apesar das estatísticas, dos idosos que guardam na memória a história viva do lugar.

    Vila Kennedy é feita de gente. Gente que transforma dificuldades em laços de solidariedade. Onde o Estado falha, surgem iniciativas comunitárias, projetos sociais, ações culturais e redes de apoio que mantêm o bairro vivo. Igrejas, associações, coletivos e lideranças locais cumprem um papel fundamental na construção de sentido e pertencimento. É essa organização informal que impede que o abandono se transforme em desistência.

    O bairro também é território de cultura. Das rodas de conversa nas calçadas aos eventos comunitários, das manifestações religiosas às expressões artísticas que brotam da juventude, Vila Kennedy produz identidade. Uma identidade marcada pela consciência de que viver ali é um ato de afirmação. É dizer, todos os dias, que aquele espaço também é cidade, também é Rio de Janeiro, também é lar.

    Completar 62 anos, portanto, não é apenas soprar velas. É revisitar a própria história e encarar as contradições de frente. Como aceitar que um bairro inteiro precise lutar tanto para ter acesso ao básico? Como normalizar a ausência do poder público em áreas que fazem parte oficialmente da cidade? Essas perguntas ecoam nas ruas, nas reuniões comunitárias e nas conversas informais entre vizinhos. Elas revelam que o aniversário não é apenas comemorativo, mas também político.

    Ao mesmo tempo, há orgulho. Orgulho de quem permaneceu quando muitos desacreditaram. Orgulho de ver filhos e netos construindo suas trajetórias a partir dali. Orgulho de chamar Vila Kennedy de “meu lugar”. Porque, apesar de tudo, viver ali faz sentido para quem construiu afetos, memórias e histórias compartilhadas. O bairro é mais do que seus problemas: é um espaço de vida, de luta e de permanência.

    Vila Kennedy chega aos 62 anos como um retrato das desigualdades urbanas do Rio de Janeiro, mas também como prova de que a cidade resiste nas suas bordas. Resiste porque seus moradores não abriram mão do direito de existir com dignidade. Resiste porque, mesmo diante do abandono, há quem faça valer a pena ficar. Resiste porque, a cada aniversário, renova-se a esperança de que o futuro possa ser diferente do passado que insiste em se repetir.











    Celebrar Vila Kennedy é reconhecer suas dores, mas, sobretudo, honrar sua força. É lembrar que ali há um bairro que, apesar das contradições, segue vivo. Um recanto do Rio de Janeiro que não se rende, que não se cala e que continua, bravamente, escrevendo sua própria história.




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